Texto (simples) com intuito (simples) de afastar o frio, a insônia,e o tédio (aham, também teve a vontade de escrever algo novo).
Não existe novidade sobre o quanto a minha rota mental rumo ao passado é gasta. Passo por ela com uma frequência tão grande que se fosse caminho da roça, mal daria tempo de nascer uns capinzinho na estrada, e tá tudo bem. E teve uma certa memória que me volta com alguma frequência, fui obrigada a escrever hoje sobre isso. Mentira, nem fui. Só quis escrever.
.
O chato de ser alguém que visita muito o passado é: hora ou outra as memórias geram reflexões hahaha. Seria mais fácil se todas as memórias fossem como panfletos, a gente olha, decide se quer, se não quer, e fica só nisso mesmo. Mas, né... enfim... partindo pra memória:
Era véspera de natal e meu pai teve a ideia de comprarmos uns brinquedinhos pra uns primos meus, de outras cidades, que estavam na minha casa. Foram duas bonequinhas pra duas primas minhas, e dois carrinhos daqueles de controle com fio, pra mim e pr'um primo mais novo, pra outro primo (aproximadamente minha idade) compramos um carrinho simples de fricção. Era amarelo...um taxi, talvez? Meu pai me deixou escolher todos. Eu tinha pouca afinidade com o primo do carrinho de fricção. Sei lá, eu podia ter comprado 3 carrinhos iguais, mas minha indiferença simplesmente falou sozinha pro meu pai "ah não, compra esse mesmo". Era mais barato e eu tinha convicção de que não faria diferença pro meu primo.
Eu dei os brinquedos, me lembro de zoar demais com o primo do carrinho de controle remoto, jurando que aquilo podia ser chamado de "cavalo de pau", enquanto o outro primo ficava reclamando, compreensivelmente chateado. Meu deus, que shade (INVOLUNTÁRIO!) do caralho foi aquele, KKKKKK aquele tipo de coisa que só percebemos depois que passa.
Enfimmmmmm, okay, passando pro foco do texto: Depois que demos os brinquedos, nos encontramos, a família toda, na casa da minha tia... no dia seguinte, se não me engano. Uma das primas das bonequinhas é irmã do primo do carrinho de controle, a outra é irmã do primo do carrinho de fricção. O pais das duas duplas de primos me chamaram, e eu não imaginava o que estava por vir. (Caralho, já começo a ficar êxtasiada - desde já! - HAHAHA quase 15 anos depois). Fui, super ingênua, como se não fosse nada demais, no máximo queriam falar alguma coisa comigo. Um dos meus tios colocou a mão no meu ombro me aproximando do outro tio que tinha um objeto na mão. A partir daí: Menor ideia de quais foram as palavras que usaram, porque eu nem escutava! Eu só via a caixinha. Eu entendi que era pra mim, eles queriam agradecer. [Não vamos entrar no mérito de que a ideia e o dinheiro dos brinquedos foram do meu pai]
Minhas mãos tremiam... Eu realmente não escutava uma palavra.
(Hoje, adulta, me é mais fácil entender porque nos desenhos animados os adultos fazem sons inaudíveis. Naquele dia estive numa espécie de desenho animado, ou "trânse". "Trânse" fica mais sem graça, mas também serve)
Poucas vezes na vida me lembro de ter ficado tão cega por um momento. Só depois de velha descobri: Ahhh, aquilo era emoção... Um dos tios abriu a caixinha pra mim, era um MINI GAME!!!!!! Um mini game que devia ter custado uns 15 reais! MEU DEUS DO CÉU, UM MINI GAME QUE CUSTAVA O PREÇO DE UMA CAIXINHA DE CERVEJA DE LATA! (Sdds início dos anos 2000)
Não conseguia responder nem falar nada, fiquei muda tentando abrir a tampinha do mini game. Meu tio perguntou se eu sabia ligar, eu gesticulei minimamente (porque nem força pra gesticular com firmeza eu tinha) que sim, mas era mentira. Mesmo sabendo que on/off SEMPRE era o botão de ligar em TUDO da vida, eu não enxergava o botão! E aquela droga tinha tipo...8 botões no máximo?!? Além de abrir a tampinha do mini game, ele o ligou pra mim (porque, sim, eu ainda não tinha conseguido :B). Aquele barulhinho, que hoje acho insuportável, começou no ambiente. Era muita gente falando, barulho típico das reuniões de família grande, porém eu........ isolada numa ilha de emoção, eu só tive ouvidos pra musiquinha.
Acho que ninguém mais se lembra desse episódio, mas seria engraçado descobrir se naquele instante alguém percebeu minhas mãozinhas super trêmulas haha.
Quando você ouvir uma história tipo "ah, aquele foi um momento mágico" e não entender porque algo tão pequeno foi tão mágico, só vai te restar acreditar porque jamais vai nos caber entender as "pequenas suavidades emocionantes" das vidas alheias, só da nossa mesmo (e olha lá, haha).
Tive esse mini game por SÉCULOS. Joguei muito, depois que a pilha acabou, fazia as vezes de manche duma aeronave. Depois virou carcaça, daí virava qualquer coisa nas minhas brincadeiras... eventualmente foi pro lixo.
Quando pensei em escrever este texto, essa memória já tinha se passado tantas vezes na minha cabeça por ser um momento que eu (ao menos até hoje) sempre busquei como referência; algo pueril e verdadeiro sobre pequenos gestos. A sensação que eu tive naquele dia foi tão forte, o resultado foi ter-se tornado uma das minhas memórias mais vivas. E perceber muuuuito tempo depois que eu pude sentir tudo aquilo com um mero minigame, me fez perguntar seriamente onde abandonamos nossa capacidade infantil de se emocionar verdadeiramente com pequenos gestos e de permitir ser marcado por eles.
Acho que a gente vai ficando velho e vai sobrando em nós bem pouco das crianças que fomos... Uma pena.
Mas, né, segue a vida que do mesmo jeito faz o baile 8).
tunts tunts tunts tunts


