terça-feira, 14 de novembro de 2017

Crianças e sua profundidade sentimental inversamente proporcional

Hoje, 14/11/17, estávamos a família toda no carro voltando duma celebração do aniversário do meu pai. Incrivelmente incomum, tudo na noite; raramente estamos a família toda no mesmo carro, há anos é assim - basicamente porque quando ficamos, brigamos. E também não temos o costume de sair pra celebrar nossos aniversários. Mas dos incomuns apontados o mais interessante é o que ainda escreverei.

A meio caminho de casa, paramos num semáforo, um carro com som bem alto tocava funk próximo a nós, minha sobrinha, 9 anos, começou a se agitar e dançar no banco de trás. O sinal abriu, o carro foi embora e o som junto. Pouco metros depois eu liguei o rádio e sintonizei na rádio Nova Brasil, toca apenas música brasileira. À noite, como quase todas as rádios - que não estão tocando pop de festa - toca músicas mais românticas, embalos mais suaves. Ouvimos duas ou três músicas até que começou a tocar Ana Carolina e Seu Jorge – É isso aí.

Segundos depois meu pai disse como se estivesse brincando “desliga o som que a música tá fazendo a Ana chorar”. Ana, a minha sobrinha, Ana, a única criança do carro. Achei que fosse uma brincadeira debochada, mas não, ela realmente chorava. Não mudei de música, não mudei o volume. Continuei a dirigir. Ouvi tentativas de consolo, pelo que eu superficialmente entendi ela estava chorando por uma cadelinha nossa que cuja morte completa um ano amanhã. E nem eu tinha me dado conta da data, e você sabe que pouquíssimas crianças tem noção tão boa de tempo assim. Coincidência, acaso, não sei. 

Junho de 2016.
Véspera do "achamento" de duas filhotinhas pela Ana.
Adotamos a da direita.
Ela continuou chorando… optei por jamais perguntar o que ela sentiu ou no que pensou enquanto a música tocava, por quê ela chorou… A gente precisa aceitar a profundidade dos sentimentos de uma criança, pois são reais. Reais até demais e ainda assim passam tão despercebidos.

Mel. Setembro de 2016.  
Ainda é noite do dia 14, chegamos em casa. Minha sobrinha me chama, agora ela já está alegre, no espírito habitual dela, pra me mostrar um copo que minha mãe comprou pra mim com um Cascão estampado. Por acaso, minutos depois, vejo na internet uma obra qualquer que acende algo em minha memória e resolvo pesquisar uma releitura que estampa um álbum de fotos dado pela minha mãe antes d’eu ter 10 anos.
A releitura em questão é um Chico Bento fazendo as horas d’O Caipira, de Almeida Júnior.


Esse álbum fica guardado, por anos intocado, vive a rotina comum de um álbum de fotos de criança de uma pessoa que agora já tá podre de adulta. E ainda assim me lembro de como fiquei entusiasmada quando minha mãe, moradora duma cidade pequena, mãe carinhosa que teve no gesto de trazer da cidade grande vizinha um álbum de fotos pra filha (com um personagem que ela provavelmente gostaria bastante), todo o amor do mundo – pelo menos eu quero acreditar nisso, né. Porém nada impede dela ter comprado só porque era liquidação, coisas assim... nem vou perguntar que é pra não estragar a linda memória. Fica a dica: Se houver chance de estragar a boa memória, jamais pergunte.

Acho que o Chico Bento foi chute dela, na época eu era fascinada igualmente por todos os personagens da Turma da Mônica. O que ela não sabe é que com o tempo o Chico Bento, junto com o Cascão, roubou meu coração dum jeito absurdo hahahaha. Talvez ela tenha até pensado em me dar um outro, um álbum mais de mocinha...talvez, entretanto, não, ela me deu justamente aquele que tinha um caipira descascando milho numa soleira de porta! E meu coração ficou cheio por horas, admirando sem parar aquele álbum, entulhando fotos nele como se o tal estivesse prestes a fugir. O MEU álbum de fotos de criança.
(Meus irmãos tinham os deles, com várias fotos deles bebês, mas é aquela coisa, né: o primogênito tem a atenção toda, o do meio tem meia atenção, o terceiro filho a gente nem sabe de que parte do chão ou de qual buraco da parede brotou. A diferença é que o álbum deles "nasceu" junto com eles, o meu não. O meu eu vi nascer... Hoje desconfio ter sido descuido da minha mãe HAHAHA. Terceira filha, trabalho pra caralho, limpar casa, meh... quando der tempo eu compro um álbum pra ela. Será? O que conta é: parecia que minha mãe tinha me permitido a dádiva de escolher minhas fotinhas, de decidir o que era bom e o que não era, de montar minha historinha).

O dito cujo
Tudo isso dito me trás uma certeza: desde crianças possuímos profundidade inimaginável naquilo que sentimos. E pra onde vai tudo isso quando envelhecemos? Evapora? Transborda com o tempo até não sobrar mais? Se seca, por quê seca? Por quê secas? Por quê a secamos ou deixamos secar? Sei que hoje, falando do álbum, percebi que mesmo depois de 14 anos passados ainda não consegui agradecer a minha mãe pelo gesto. E nunca vou conseguir. É que ela me deu algo impossível de comprar, reproduzir, copiar, re-encenar: ela proporcionou à minha pequena alma, no auge de seus poucos anos, ficar suspensa no universo. Simplesmente maravilhada demais com o momento. Presa. Em trânse.

E vai ver por isso vou deixar intocado o momento da minha sobrinha com aquela música. Tem momentos, onde emoções afloram, que são particulares demais quando somos crianças. E eles são tão nossos, tão nossos, que devia ser proibido algum adulto estragar fazendo perguntas.

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