Hoje, 14/11/17,
estávamos a família toda no carro voltando duma celebração do
aniversário do meu pai. Incrivelmente incomum, tudo na noite; raramente estamos a família toda no mesmo carro, há anos é assim - basicamente
porque quando ficamos, brigamos. E também não temos o costume de sair pra
celebrar nossos aniversários. Mas dos incomuns apontados o mais interessante é o que ainda escreverei.
A meio caminho de
casa, paramos num semáforo, um carro com som bem alto tocava funk
próximo a nós, minha sobrinha, 9 anos, começou a se agitar e
dançar no banco de trás. O sinal abriu, o carro foi embora e o som
junto. Pouco metros depois eu liguei o rádio e sintonizei na rádio
Nova Brasil, toca apenas música brasileira. À noite, como quase
todas as rádios - que não estão tocando pop de festa - toca
músicas mais românticas, embalos mais suaves. Ouvimos duas ou três
músicas até que
começou a tocar Ana Carolina e Seu Jorge – É isso aí.
Segundos depois meu
pai disse como se estivesse brincando “desliga o som que a música
tá fazendo a Ana chorar”. Ana, a minha sobrinha, Ana, a única
criança do carro. Achei que fosse uma brincadeira debochada, mas
não, ela realmente chorava. Não mudei de música, não mudei o
volume. Continuei a dirigir. Ouvi tentativas de consolo, pelo que eu
superficialmente entendi ela estava chorando por uma cadelinha nossa
que cuja morte completa um ano amanhã. E nem eu tinha me dado conta da
data, e você sabe que pouquíssimas crianças tem noção tão boa
de tempo assim. Coincidência, acaso, não sei.
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| Junho de 2016. Véspera do "achamento" de duas filhotinhas pela Ana. Adotamos a da direita. |
Ela continuou chorando… optei por jamais perguntar
o que ela sentiu ou no que pensou enquanto a música tocava, por quê
ela chorou… A gente precisa aceitar a profundidade dos sentimentos
de uma criança, pois são reais. Reais até demais e ainda assim
passam tão despercebidos.
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| Mel. Setembro de 2016. |
Ainda é noite do
dia 14, chegamos em casa. Minha sobrinha me chama, agora ela já está
alegre, no espírito habitual dela, pra me mostrar um copo que minha
mãe comprou pra mim com um Cascão estampado. Por acaso, minutos
depois, vejo na internet uma obra qualquer que acende algo em minha
memória e resolvo pesquisar uma releitura que estampa um álbum de
fotos dado pela minha mãe antes d’eu ter 10 anos.
A releitura em
questão é um Chico Bento fazendo as horas d’O Caipira, de Almeida
Júnior.
Esse álbum fica guardado, por anos intocado, vive a rotina
comum de um álbum de fotos de criança de uma pessoa que agora já
tá podre de adulta. E ainda assim me lembro de como fiquei
entusiasmada quando minha mãe, moradora duma cidade pequena, mãe
carinhosa que teve no gesto de trazer da cidade grande vizinha
um álbum de fotos pra filha (com um personagem que ela provavelmente
gostaria bastante), todo o amor do mundo – pelo menos eu quero
acreditar nisso, né. Porém nada impede dela ter comprado só porque
era liquidação, coisas assim... nem vou perguntar que é pra não
estragar a linda memória. Fica a dica: Se houver chance de estragar
a boa memória, jamais pergunte.
Acho que o Chico
Bento foi chute dela, na época eu era fascinada igualmente por todos
os personagens da Turma da Mônica. O que ela não sabe é que com o
tempo o Chico Bento, junto com o Cascão, roubou meu coração dum
jeito absurdo hahahaha. Talvez ela tenha até pensado em me dar um
outro, um álbum mais de mocinha...talvez, entretanto, não, ela me
deu justamente aquele que tinha um caipira descascando milho numa
soleira de porta! E meu coração ficou cheio por horas, admirando
sem parar aquele álbum, entulhando fotos nele como se o tal
estivesse prestes a fugir. O MEU álbum de fotos de criança.
(Meus irmãos tinham
os deles, com várias fotos deles bebês, mas é aquela coisa, né: o
primogênito tem a atenção toda, o do meio tem meia atenção, o
terceiro filho a gente nem sabe de que parte do chão ou de qual
buraco da parede brotou. A diferença é que o álbum deles "nasceu" junto com eles, o meu não. O meu eu vi nascer... Hoje desconfio ter sido descuido da minha mãe HAHAHA. Terceira filha, trabalho pra caralho, limpar casa, meh... quando der tempo eu compro um álbum pra ela. Será? O que conta é: parecia que minha mãe tinha me permitido a dádiva de escolher minhas fotinhas, de decidir o que era bom e o que não era, de montar minha historinha).
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| O dito cujo |
Tudo isso dito me
trás uma certeza: desde crianças possuímos profundidade
inimaginável naquilo que sentimos. E pra onde vai tudo isso quando
envelhecemos? Evapora? Transborda com o tempo até não sobrar mais?
Se seca, por quê seca? Por quê secas? Por quê a secamos ou
deixamos secar? Sei que hoje, falando do álbum, percebi que mesmo
depois de 14 anos passados ainda não consegui agradecer a minha mãe
pelo gesto. E nunca vou conseguir. É que ela me deu algo impossível
de comprar, reproduzir, copiar, re-encenar: ela proporcionou à minha
pequena alma, no auge de seus poucos anos, ficar suspensa no
universo. Simplesmente maravilhada demais com o momento. Presa. Em
trânse.
E vai ver por isso
vou deixar intocado o momento da minha sobrinha com aquela música. Tem momentos, onde emoções afloram, que são particulares demais quando somos crianças. E eles são tão nossos, tão nossos, que devia ser proibido algum
adulto estragar fazendo perguntas.




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